Diante de uma visão de mundo pelos entrelaços desiguais das convivências humanas, o filme sul coreano, ganhador do Oscar, sem dúvidas, evidencia grandes discussões sobre a realidade de um mundo selvagem, onde a busca pela sobrevivência e a ganância pelo lucro e uma vida luxuosa são os personagens principais. A história retrata a vida de uma família que vive em condições financeiras de muita dificuldade (os Kim), e moram no lado pobre e esquecido da cidade, onde fazem qualquer coisa para ganhar um dinheiro a mais e sofrem de problemas bem sérios de fome e falta de higiene básico. Em contrapartida, há um cenário de uma família (os Park), residente de uma mansão luxuosa, e que estão em busca de um professor particular para a filha mais velha. Em todo esse contexto, os antagônicos se cruzam, quando o filho da família pobre começa a prestar serviços na casa e se vê diante de uma brecha para uma mudança radical de vida. É a partir desse ponto, que a história começa e evidencia as facetas dos seres humanos, questionando até onde vamos para alcançar nossos objetivos e sobrevivermos na natureza impiedosa e injusta. Como um parasita, a família desafortunada, em uma série de estratégias e técnicas de intepretação, vai lentamente caminho para encaixar todos os integrantes como funcionários da casa, para assim conseguirem adentrar uma realidade que antes parecia tão distante e utópica. Em um retrato fiel de como a vida selvagem funciona, os personagens relembram muito as relações ecológicas existentes, tais como, a as interespecíficas (harmônicas), as quais justamente apresentam a sociedade, e as colônias (diferentes famílias), bem como as desarmônicas, bem como o amensalismo e predatismo (a relação entre a família pobre e os funcionários já existentes na casa, como a empregada e o motorista), visto que, aos poucos, vão eliminando e condicionando todo o caminho para que não tenham competição naquele local de interesse. Por fim, há a relação principal a de parasitismo, a qual representa todo o contexto da trama, mostrando a casa como hospedeira de interessados que nem sempre através de atitudes éticas adentram o seu interior. Além disso, a critica perante a sociedade é de grande representação, todo o contexto de um mundo sem qualquer tipo de equidade e condições igualitárias, procura mostrar os dois lados de uma moeda, que gira sempre em favor daqueles que mais possuem, como as desventuras em série, são sempre mais recorrentes em famílias residentes do quarto de despejo, em referência ao livro de Carolina Maria de Jesus. Portanto, podemos concluir que as divergências sempre presentes entre o topo da pirâmide e sua base, como o preconceito já está enraizado em nossos pressupostos – referido a cena em que patriarca da família retorce o nariz para o cheiro do motorista, pai dos meninos – e como isso aprofunda ainda mais as disparidades entre uma classe e outra, onde o sentimento de pertença e superioridade reinam diante da comodidade de uma situação de privilégio. Vejo também uma crítica pertinente, ao funcionamento de trabalhos domésticos, visto que ainda se diz muito comum, em diversas famílias, considerar “normal” a moradia de funcionários nos locais de trabalho, fazendo vista grossa para diversas relações contratuais, bem como, reafirmando as posições estruturais da sociedade, visto que o casal, de tanto precisar, viviam embaixo da casa, no porão, e idolatravam os chefes da família por, sem nem saber, os abrigar e providenciar uma condição de vida básica, mesmo que não digna. Sem dúvidas, a trama é estarrecedora, questionamentos éticos e filosóficos, evidenciados na questão de que na trama não há um pré estabelecimento de quem são os vilões ou heróis, a história retrata a vida, em suas mais diversas interpretações, o que significa que o sentido atribuído ao filme, pode alterar-se dependendo de quem o assiste. Ao longo de cada cena, percebe se uma forma simples e até com um pouco de humor, mas impactante, do quanto a visão da vida depende das lentes e de onde estamos situados, sem dúvida, de cima, a vista é muito mais agradável e tranquila. Ao que tange à visão final, pode-se perceber que a lição do filme se releva na inabilidade do ser humano de construir uma vida minimamente digna e equilibrada para todos, e que, no fim das contas, todos estamos destinados ao mesmo fim, a destruição de tudo, quando há competição entre a mesma espécie, o resultado é a extinção, portanto, pode-se referenciar o final do filme como uma prova de ninguém saiu beneficiado, todos sofreram graves consequências, novamente podendo relacionar ao filme do Poço, visto que, não importa, no fim das contas, em qual andar estamos situados, todos iremos seguir, em conjunto para o mesmo trágico fim, se não repensarmos os valores morais básicos da vida humana, e atribuindo-lhes características éticas e filosóficas, visando encontrar uma luz na escuridão do canibalismo humano.
Referências:
https://canaltech.com.br/cinema/critica-parasita-mostra-a-sociedade-em-canibalismo-158862/
Artigo publicado originalmente no site JOTA, em 27/04/2020. Disponível em: <https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/o-poco-a-moralidade-diante-da-distopia-27042020> – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS.