O filme “O poço”, exibido na Netflix, traz consigo um grande questionamento axiológico de cunho filosófico e ético a despeito de algumas sérias condutas comportamentais da sociedade. Em primeiro relance, pode-se obter a compreensão de que se trata meramente de uma crítica as desigualdades sociais, entretanto, o filme possui uma profundidade que transcende as barreiras de uma mera desaprovação as estruturas sociais. O filme retrata um cenário distópico, o qual é representado por uma espécie de prisão, estruturada através de infindáveis andares, os prisioneiros, por sua vez, são a cada determinado tempo, realocados em diferentes andares, migrando desde andares mais profundos, para os mais iniciais. A grande questão está em como a comida nessa prisão é distribuída, existe um pilar móvel que inicia no primeiro andar e vai seguindo para os demais, sobre ele, é apresentado um verdadeiro banquete, com bebidas, sobremesas e uma grande quantidade de comida, sendo assim, essa plataforma, permanece um tempo em cada andar, e vai seguindo, até ao final do dia, chegar ao último. O cerne do filme é em justamente como as pessoas se comportam diante dessa situação, procurando analisar a verdadeira essência do ser humano. Ao que se percebe, as pessoas parecem não se importar com a quantidade limitada de comida, e que provavelmente os andares inferiores não terão o que comer, o que poderá eventualmente lhes causar a morte, ao contrário, cada um devora tudo que consegue, se beneficiando da situação privilegiada em que se encontram. Portanto, pode-se dizer que a relevância está em justamente analisar a conduta do ser humano de sempre procurar aquilo que é apenas do seu próprio interesse, em não se importar com o que está ao redor, apesar de reclamar quando as consequências de suas atitudes o afetam diretamente. Seguindo preceitos éticos e filosóficos, podemos citar diversos questionamentos, tais como Hannah Arendt, e o seu estudo sobre a banalidade da sociedade e ao conformismo excessivo com a injustiça e a maldade. Também com Adam Smith, que em “A riqueza das Nações”, também advém de uma grande teoria de que todas as atitudes são resultantes dos interesses consequentes e não da necessidade por si só. Ao que se configura o grande embate entre Estado e Economia, e o que justifica a grande polarização político-social que há tempo tanto protagoniza os cenários políticos organizacionais de vários países e do mundo. De um lado o liberalismo, identificando o mundo sendo racionalizado apenas pelo olhar do utilitarismo e do bem-estar individual, já do outro, uma defesa de um Estado social, beneficiando os setores mais carecidos da sociedade. Sem dúvida, há ainda uma grande relação entre o filme o cenário atual de pandemia, os efeitos do coronavírus. Se formos analisar, a realidade é bem mais complexa do que meras linhas teóricas e analíticas, possuímos diversos efeitos problemáticos sequenciais que afetam a vida em sociedade como um todo, sem dúvida, uma grande questão debatida hoje, é a de respeitar ou não a quarentena, por um lado, temos o setor que defende a liberdade, alegando que as pessoas “desejam” trabalhar pois não querem passar fome, por outro lado isso significaria um sacrifício de uma outra frágil parcela da sociedade que morreria em causas do vírus. O que realmente deverá ser feito, será que não há uma solução ética e de melhor aproveitamento para ambos os lados, afinal vidas estarão sendo perdidas em ambos os cenários, a questão está longe de ser simplória. Ao que se entende, devemos nos atribuir de alguns preceitos de Dworkin, o qual, por sua vez, critica a mera racionalização de sintomas tão complexos quanto os enfrentados pela realidade. Não devemos simplesmente agir, seguindo apenas as normas, sem perceber na consequência como um todo. Devemos assimilar a possibilidade de que algumas pessoas não querem de fato trabalhar, mas que o fazem, por se trata de uma questão de sobrevivência; já por outro lado, temos as parcelas abastadas da sociedade, que tomam vinho em suas casa, e passam a quarentena trabalhando de frente pra piscina e preparando verdadeiros banquetes. Será que a racionalização dessas atitudes, não excluem uma grande conduta antiética e egoísta? Sem dúvida, todos temos direito de usufruirmos daquilo que é nosso, mas, quando citamos uma situação de tanta importância e trágica, como a de agora, será que não estamos vivenciando na pele, aquilo que o filme retrata? Os andares superiores – ou a ponta da pirâmide – usufruindo de seus bens e privilégios e criticando aqueles que não defendem os menos abastados de irem trabalhar ou fazerem o necessário para sobreviver, mas que por sua vez não enxergam que a comodidade os cegaram da realidade fática. Sem dúvida, é uma questão paradoxal e de extrema dificuldade, a solução não é clara e nem objetiva, todavia não elimina os efeitos de valores morais extintos da sociedade, da cultura de agir apenas pelo seu próprio interesse e depois reclamar de viver em um país tão desigual. Será que o problema está somente quando as consequências afetam a estética do país ideal? Sem dúvida, para que se encontre uma luz, devemos nos basear em estudos aprofundados e compreender aquilo que move o ser humano, trazer propostas de atitudes que beneficiem o todo, mesmo que isso cause algumas perdas de regalias dos mais ricos, afinal, não vivemos isolados e somos codepentes, talvez um pouco de empatia, e uma visão sistêmica do todo, traga algumas mudanças efêmeras em pensamentos mesquinhos, e acredito que essa foi a proposta trazida pela filme, de extrema relação com a situação do mundo, e que nos questiona a respeito de onde estamos e para onde devemos caminhar.
3 Responses
Ótima leitura, obrigado!!!
Muito bom.. um crivo criterioso sobre um filme enigmático….gostei.
Muito bom ! Não assisti o filme mas seu comentário me instigou. Vou assistir com certeza. Gostei do texto.