Um olhar sob a Advocacia 4.0

Inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança.” – Stephen Hawking

O que se vive atualmente é uma revolução contínua e sem precedentes, o mundo está em constante mudança, a tecnologia avança em uma velocidade nunca antes vista, e juntamente com ela, sobrevivem aqueles que melhor se adaptarem e que harmoniosamente seguirem os fluxos em direção ao futuro, trazendo consigo inovações tanto internas, quanto externas. Os fatores e exigências para os Advogados 4.0, já não se complementam mais por abotoadoras, trajes formais e uma retórica admirável, mas, necessitam de aperfeiçoamento e de habilidades as quais integralizam o meio jurídico. Diante dessas perceptíveis e rápidas mudanças, os segmentos jurídicos procuram se alinhar às reformas e também buscam jeitos de se manterem no mercado, uma vez que o ser humano possui intrinsecamente o instinto de sobrevivência, e se há competição, existe a necessidade de procurar novos meios para enfrentá-la.

No que tange ao mercado de trabalho no Brasil, alguns órgãos já vêm sendo criados com o intuito de estudar esses novos avanços da tecnologia e buscar compreender as melhores formas que os advogados têm de se unir a ela. Um desses exemplos, é a AB2L (Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs), criada em meados de 2017, a AB2L é um grupo que se compõe em maioria de advogados e buscam apreender todo o ecossistema jurídico, juntamente com os prognósticos futuros, além de analisar banco de dados e inovações nas áreas, trazem propostas para advogados recém formados, indicando quais possíveis caminhos venham se tornar “hotspots” no futuro. Há em torno, todo um estudo e um aproveitamento de novos empresários diante de serviços inovadores para o meio jurídico, fomentando o crescimento desse setor e possibilitando abrir novos caminhos, além de dar relevância e um maior conhecimento aos advogados com um alto grau de qualificação, nesse ponto, a junção do direito com outras áreas de interesse, tornam-se de grandes investimentos. A sociedade necessita de profissionais os quais se apresentem qualificados para atuar em diversos campos, visto que no futuro já evidente, ela torna-se a cada dia mais plural, hipercomplexa, e fundadora de uma infinidade de interesses contrastantes os quais se evidenciam. Portanto, há de se concordar que para um profissional que esteja mais preparado, mais fácil será o processo de adaptação. E para que esse aprimoramento seja viável, o estudo, a dedicação, mente aberta, investimentos em bons relacionamentos e a leitura, tornam-se companheiros inseparáveis. Diante disso, alguns profissionais defendem que para uma melhor qualificação, o embasamento de cunho filosófico e ético são de fundamental importância, visto que trazem consigo todo o repertório e a analítica social para que seja possível compreender o entorno e aplicar o conhecimento adquirido de maneira sábia e precisa.

Pássaro

No que diz respeito a área prática, algumas propostas também são levantadas, como alguns questionamentos quando a persistência em métodos jurídicos que logo já estarão ultrapassados, como Marcelo Guedes Nunes citou: “Mediante a utilização de big data e jurimetria, faz sentido permitir-se a via recursal, quando já se saberia que, estatisticamente, certo recurso teria 99,54% de chance de ser negado pelo tribunal superior (gerando ineficiência ao curso processual, com a população arcando com tributos adicionais a cada estágio)?” . Essa é apenas uma entre tantas outras possíveis oportunidades de mudanças. Se formos seguir preceitos e “insights” do que a vida em sociedade realmente irá ser, de acordo com Yuval Harari, a mudança terá que começar na educação. Não apenas as pessoas, mas a sociedade como um todo terá que se reinventar, os valores serão outros e já não há mais certeza de nada. Se antigamente era possível prever – nem que fosse, pelo menos, as estruturas básicas da humidade – atualmente isso não é mais viável, os trabalhos que hoje conhecemos, amanhã podem nem mais existir e não se há mais uma segurança de vida, muito menos de políticas públicas. Portanto, a diferença crucial entre as pessoas que estarão à deriva, e àquelas que internamente estarão mais adaptadas, se dá pelo simples recurso de uma mudança no modelo mental e nas rotinas diárias. No que tange aos meios educacionais, há uma grande crítica ao tempo que vem sendo perdido em razão de passar infindáveis informações, já não é mais necessário e obrigatório que os professores permaneçam horas passando conteúdos de pouco interesse e maciços, o que é relevante são os filtros que os alunos deverão ter em suas lentes digitais, para que mesmo diante de milhares de informações e noticias, possam focar e aprofundar naquilo que de fato é importante e relevante, não mais ensinar o que achar, mas sim, ensinar como procurar dentre tantas oportunidades. As pessoas se encontram perdidas e desiludidas, junto com a informação, vem a responsabilidade e a ética pessoal para que se possa torna-la útil e de bom grado a todos. Mas, quem serão os reais inimigos de fato de uma sociedade tecnológica, como se não fosse óbvio, serão os algoritmos e a IA (inteligência artificial), importante ressaltar, não é a existência e a evolução que trará malefícios, mas sim a maneira com que será aplicada, pois, para grandes estudiosos, juntamente com o desenvolvimento tecnológico, o aprofundamento social e humano deverá ser igualmente estudado. Em algumas outras hipóteses, há o aprofundamento de valores inerentes aos seres humanos e em classificações para todas essas inovações da vida. Portanto, em uma visão mais transumanista, abordamos os aspectos em um estudo mais antropológico. Estamos vivendo num mundo em ebulição com grandes questionamentos e transformações sociais, éticas, espirituais, e ainda transformações na ciência, na economia e nos valores políticos. Poderíamos chamar de revolução?

A tecnologia, a rapidez na manipulação dos dados e na genética, a interação entre os países e os interesses científicos e de longevidade fervilham em busca de um novo mundo.

Mas ainda não sabemos se toda essa transformação irá desembocar num mundo mais humano com mais solidariedade, empatia e gratuidade nas ações ou ao contrário disso num mundo ultraliberal e ainda mais capitalista.

Nesses termos cabe o termo transumanismo. Que segundo Luc Ferry seria um grande projeto para melhorar a humanidade em todos os aspectos. Ou também, segundo Nick Bostrom, cientista e filósofo sueco que diz: “Virá o dia que nos será oferecida a possibilidade de aumentar nossas capacidades intelectuais, físicas, emocionais e espirituais muito além daquilo que parece possível hoje em dia.

Sairemos então da infância da humanidade para entrar na era pós humana.

Esse sim é um grande projeto. O trasnsumanismo se desapega de todos os dogmas e limitações resignados e vinculados a religiosidade, espiritualidade e a crença um ser superior para investir em todas as possibilidades de evolução do ser humano, através da tecnologia e do pensamento livre e criativo. Encara a humanidade com uma fase intermediária e transitória de uma possibilidade muito maior de inteligência pós-humana. Para uma maior compreensão desse conceito é importante ler o Manifesto Transumanista (versão 2012) e adotado pela “World Transhumanist Association”, o qual também interpela aspectos relevantes a respeito desse tema.

Além dessas compreensões há que se determinar em quais áreas de atuação que os bacharéis em direito deveriam focar. Ao que observa nos dias atuais, principalmente em locais em que a tecnologia já alcançou estado mais avançado e abrangente, os meios jurídicos provem de uma grande combinação com demais cursos, um dos mais procurados em países europeus, são aqueles que partem de uma mistura entre administração, economia, direito e tecnologia da informação. É compreensível o interesse, visto que dentre dessas áreas de estudo, o profissional se apresenta conhecedor de um leque muito maior de informações, facilitando a migração entre um setor e outro, bem como, possibilita uma visão muito mais ampla da empresa ou da atuação profissional. Sem dúvida, há também um grande interesse em advogados que se especializam na área de proteção e controle de dados, visto que o direito é atuante em relações pessoais, mas que em muitos dos casos, a internet é ainda encarada como “terra sem lei”, haja vista as lacunas normativas que se encontram, dado pelo fato de ser um meio de trabalho novo. Portanto, no que diz respeito ao uso da legislação para os meios virtuais, e um domínio perante um mundo mais colaborativo e cibernético, também se evidencia. No que diz respeito aos valores interiores, os meios de trabalho também necessitam se reinventar, baseando-se em chefias de grandes empresas, as quais são executadas de forma horizontalizada, igualitária e heterodoxa.

Não há dúvidas de que são infindáveis as possibilidades para os profissionais, como sempre tem a maneira de enxergar o copo meio vazio, há, em contrapartida, o ângulo que o avista meio cheio. É essa perspectiva que os profissionais devem levar consigo, sempre com esperanças positivas, dispostos a aprender e a se renovar e não ficarem presos a dogmas e tradições, o mundo gira em consonância com as mudanças, e através da criatividade, empatia, ética, seriedade e um toque de descontração e arrojamento, o ecossistema jurídico pode se valer de grandes valores e mudanças que o aproximem cada vez mais do futuro.

Referências:

FERRY, Luc. “O que é transumanismo”. A Revolução Transumanista. Barueri-SP: Manole, 2018.

HARARI, Yuval Noah. “Educação: a mudança é a única constante”. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

DUFLOTH, Rodrigo. “Novas Tecnologias e o futuro do profissional do direito.” Acesso em: https://www.migalhas.com.br/depeso/267391/novas-tecnologias-e-o-futuro-do-profissional-do-direito

https://blog.freelaw.work/ab2l/

https://www.jornaljurid.com.br/blog/auxilium/o-futuro-da-advocacia

https://www.youtube.com/watch?v=By6vAAxears

One Response

  1. Atual e pertinente! Estaria a advocacia ameaçada pela tecnologia pós-moderna? O “ministro” Victor está para nos fazer pensar. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos….

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