Resenha do filme suprema – “On the basis of sex” – 2019

O filme Suprema, em inglês “On the Basis of Sex”, dirigido por Mimi Leder e escrito por Daniel Stiepleman, foi lançado em 2018, possui 120min de duração e pertence ao gênero drama. Conta com excelentes atuações e nomes, tais como Felicity Jones (Ruth Bader Ginsburg), Armie Hammer (Martin Ginsburg) e Justie Theroux (Mel Wulf). O enredo conta a biografia do grande nome de Ruth Bader Ginsburg, suas principais aspirações e conquistas, desde o início da sua vida acadêmica até o seu maior triunfo, uma cadeira na Suprema Corte dos Estados Unidos. O filme além de ser fiel à história de Ginsburg, enaltece ideais feministas, questiona grandes impasses e injustiças de como a sociedade funcionava desde os tempos antigos e enfatiza a necessidade de mudança e de reconfiguração e readaptação dos padrões e convicções de um país ao longo de sua evolução. Uma excelente experiência de lazer, ao mesmo tempo que se reflete sobre todas as conquistas das mulheres e das minorias, diante das repressões diárias e dos obstáculos colocados durante todo o percurso.

Resenha:

1956. O filme inicia com uma grande cena, na qual diversos homens, em trajes sociais, são mostrados marchando em tom de orgulho pelas escadarias da maior e mais respeitada Universidade do país, Harvard. Ao passo que todos ali se sentem honrados de representar a elite intelectual e de serem os grandes homens da vida acadêmica mais almejada, uma figura destaca-se no meio, com a mesma alegria e honra, caminha em passos mais rápidos e curiosos, para alcançar o salão nobre, maravilhada com toda a estrutura, Ruth, encontra-se sentada em uma sala com quase quinhentos homens, e apenas nove mulheres, formando assim, o grupo dos novos estudantes da Escola de Direito de Harvard. Sendo esse apenas o sexto ano em que as mulheres foram permitidas a frequentar Harvard, um jantar é oferecido pelo reitor, em forma de conhece-las melhor. Ruth, questionadora e a frente do seu tempo, sente-se incomodada da forma que as mulheres ali presentes são questionadas a respeito do porquê estarem frequentando Harvard e o que fizeram de tão merecedor para conseguir ocupar o lugar de um homem. De forma sarcástica e zombadora, Ginsburg, responde que está ali apenas para acompanhar o marido, e aprender a ser uma esposa melhor e mais compreensiva. Indignada com o fato de ainda ser tão inaceitável e motivo de preconceito as mulheres terem alcançado o direito a estudar, ao longo das suas primeiras experiências nas aulas, ela já pode perceber que seu caminho não seria fácil e que teria que se esforçar o dobro para alcançar o prestígio e respeito dos professores e colegas de turma.

Ruth já iniciou os estudos, casada e com um bebê, seu marido, Martin Ginsburg, era seu companheiro desde que ela tinha terminado seus estudos na escola e seguiram juntos para Harvard, ele já estava no segundo ano enquanto ela havia começado, eles se revezavam para cuidar da filha e estudavam juntos, até um dia quando Martin, teve um episódio de dor aguda e foi diagnosticado com câncer de testículo. Seguindo as orientações dos médicos, Martin teve de se ausentar um tempo da faculdade, e teve que ficar em casa, seguindo com os tratamentos. Ruth, por outro lado, encontrou-se uma situação extremamente difícil e extenuante, visto que decidiu acompanhar as aulas do marido em adição as suas próprias, para que pudesse repassar para ele tudo que foi dado e para que ele não perdesse aulas. Seguindo assim por algum tempo, com a vida corrida e cansativa, Ruth teve que se adaptar a um cenário em sua maioria masculino e enfrentar ainda as dificuldades em casa.

1959. A cena inicia com Martin já alguns anos depois recebendo uma proposta de trabalho em Nova Iorque. Entretanto, o Reitor de Harvard não queria permitir a transferência de Ruth, alegando que seu marido podia sustentá-la tranquilamente, fazendo assim com que ela optasse por realizar os estudos na Universidade de Columbia. Já mais tarde, formada em direito, Ruth procurava ansiosa para uma oportunidade de trabalho, entretanto, sendo rejeitada em todos os escritórios, visto que naquela época era permitido para uma mulher estudar, mas ser vista no meio de trabalho, exercendo aquilo que ela estudou, era inaceitável. Portanto, já sem esperança e desacreditada, Ruth, aceita como seu último recurso, uma vaga de professora universitária, e segue sem poder exercer o papel de advogada.

1970. O filme então passa para uma época a frente, já com o casal trabalhando de forma intensa, Martin em um escritório de direito tributário renomado, e Ruth como professora de uma faculdade de direito. Os filhos já eram maiores, e a rotina da família é mostrada de forma harmônica. O marido, indo a grandes eventos do escritório, sendo o centro das conversas e motivo de orgulho e admiração por todos, e Ruth o acompanhando, em segundo plano, de forma mais passiva e retraída. Até um momento, em que ela, não mais em concordância com esse estilo de vida, expressa para Martin suas decepções e angústias, perante o mundo machista e repressor em que eles vivem, ela, mesmo se formando em primeiro na turma da universidade, com honra, conseguindo graduação em duas universidades, não conseguia ser advogada, era negada o direito de exercer sua profissão, pelo simples fato de ser mulher. Martin, que nunca se encaixou nos padrões machistas de sua época, apoiou a esposa, e concordou com o fato de que era injusto e retrógrado esse pensamento das mulheres não poderem trabalhar em iguais parâmetros aos homens.

Foi assim que um caso caiu na mão do casal, e que poderia ser o ponto de partida para toda uma mudança em um regimento legal obsoleto e discriminatório. Havia ocorrido, em Colorado, um caso de discriminação perante um homem, de acordo com a lei ele não teria o direito de receber um dinheiro para contratar um cuidador para sua mãe, já idosa, visto que esse beneficio era previsto apenas para mulheres ou para homens que encaixassem nos quadros de viúvos, divorciados ou com mulheres incapacitadas. Ruth, após analisar todo o caso cuidado, concluiu que se pudesse demonstrar que de acordo com o ordenamento legal, seguindo a 14ª Emenda Constitucional (prevê que todos são iguais perante a lei), ela conseguiria afirmar que as leis que discriminam as mulheres e que as impossibilitam de exercer alguns papéis de cidadãs, são, portanto, inconstitucionais. A partir desse ponto, uma grande batalha contra a discriminação nas bases do sexo é iniciada, Ruth começa de fato a exercer seu papel de advogada e a ir atrás de conseguir derrubar obstáculos que são colocados a frente de todas as mulheres. – É válido ressaltar nesse ponto, que a sua filha Jane Ginsburg (Cailee Spaeny) assumiu um papel significativo também, visto que, por ser de uma geração mais nova, menos compassiva e resignada, mais idealista, chamou a atenção da mãe pelo fato dela ter se acomodado ao longo dos anos e aceitar o papel secundário de esposa que lhe foi resignado. De forma a demonstrar, que nem sempre, é pedindo com gentileza e sem afinco, que as pessoas irão lhe conceder o que é seu de direito, às vezes, atitudes mais extremadas são necessárias. – Ao longo de todo o treinamento e do caso já consolidado, Ruth, se prepara para entrar na corte defendendo tudo aquilo pelo o que ela batalhou, ela vai pedir para que a União Americana pelas Liberdades Civis, estampe o novo, junto ao caso, juntamente com seu colega Mel Wulf. Percebendo que todo o processo não seria fácil, que as argumentações teriam que ser inovadoras e implacáveis, para que todo o preconceito e o retrocesso fossem superados, Ruth, percebe que talvez ir a corte, sem nenhum auxílio, seja quase impossível. Mesmo após, um acordo ter sido oferecido, e Ruth ter passado isso a seu cliente, ele rejeitou, e foram de cabeça erguida enfrentar uma das maiores batalhas judiciais em sua carreira. Em um desses momentos, Ruth percebe que talvez sua estratégia de acusação teria que ser mais impactante, e tenta levar a outro nível o processo, alegando que os precedentes os quais regem o sistema legal, não mais se aplicam, visto que o mundo mudou, ele já não é mais tão preconceituoso e machista como era antigamente, as mulheres já teriam assumido um papel um pouco mais relevante na sociedade. Portanto, todas as pequenas mudanças, deveriam ser levadas em contas, na hora dos juízes tomarem uma decisão que traria retrocesso, para todas as evoluções acometidas pelas mulheres. “Os tribunais não serão afetados pelo estado do tempo, mas pelo espírito do tempo.”

Partindo com essa atitude perante a Corte, Ruth, enfrentou o tribunal que iniciou um movimento de casos defendidos em favor das mulheres. Em uma sustentação oral magnífica, Ruth, pautou seu discurso em uma Mudança Social Radical, a qual trouxe a tona, suas próprias experiências como advogada e mulher, como mãe e esposa, e citou grandes nomes de mulheres batalhadoras e acima do seu tempo que aspiravam viver um dia em um mundo sem discriminação de gênero, sem preconceito e negação pelo fato de serem mulheres, onde as minorias ocupavam seu espaço dentro do campo legal. E apesar da palavra “mulher” não ser citada nenhuma vez na Constituição, a mesma coisa acontecia com a palavra “liberdade”, desbancando o argumento de que apenas pelo fato de um dia os direitos dessas pessoas não terem sido reconhecidos, não significa que isso tenha que se prolongar para as próximas gerações, o pedido de Ruth não era para que a Corte mudasse o país, era para que eles não impedissem o país de mudar e evoluir. Os juízes não estavam errados, mas a lei estava errada, as mudanças precisavam vir de maneira mais intensiva. Por fim, Ruth, ganhou o caso, alcançando a vitória não apenas para seu cliente, mas para um enorme grupo de pessoas, defendendo sempre a extensão da lei, com a inclusão de minorias. Esse caso foi o que iniciou uma brilhante e exemplar trajetória de uma mulher que nunca aceitou ser apenas aquilo que os homens esperavam dela, ela deu o seu melhor, para conseguir enfrentar uma sociedade que ainda prevalecia de valores e princípios machistas e manipuladores, que ainda não permitam a voz e a liberdade das mulheres. Foi o que iniciou a carreira de uma das maiores juízas de todos os tempos, que ainda serve de exemplo e leva seus conhecimento em favor da justiça, Ruth Bader Ginsburg, que em 10 de Agosto de 1993, foi indicada pelo então presidente Bill Clinton, para se tornar uma associada de Justiça da Suprema Corte Dos Estados Unidos.

Crítica:

O filme, bem como toda a história, são definitivamente motivo de inspiração para toda uma geração de pessoas as quais possuem o desejo de mudança e justiça dentro de si e em uma sociedade. Se expandindo para assuntos que não se resumem apenas as mulheres, mas todo o tipo de discriminação que as pessoas poderão vir a enfrentar, questionando princípios básicos fundamentais e de humanidade, que precisavam prevalecer como guias de uma jurisdição. Dentro dessa história, algumas passagens são passadas como grande valores, tais como a situações de que a lei nunca se dá por acabada, ela deverá ser firme e justa, mas deve estar de acordo com a sociedade em que se encontra, deverá ser receptiva a novas alterações e inclusões, quando os princípios fundamentais não mais prevalecerem. Outros nomes são citados como inspiração, Dorothy Kenyon, que foi uma advogada e juíza, feminista e uma ativista política, buscou em toda a sua carreira, transformar o papel das mulheres, buscando desde o direito a sufrágio, bem como procurando revolucionar o status das mulheres. – Pontuo uma frase citada no filme, da filha de Ruth, que diz que enquanto as mulheres ficam sentadas, falando sobre como a sociedade não é justa, isso não é um movimento, mas sim, um grupo de apoio. – Essa parte me lembrou o primeiro filme assistido, as sufragistas, as quais justamente entram na discussão da importância dos atos, antes das falas, visto que apenas diante de movimentações e ações é que se atinge aquilo que se busca. O papel de Ruth Ginsburg, foi realmente muito importante para a sociedade americana, mulheres que não se intimidam pelos desafios impostos e enfrentam diariamente dificuldades e desonras. Infelizmente, todo esse processo, deve ainda ser encarado como atual, visto que as mulheres ainda estão longe de atingir um papel equitativo na sociedade, as batalhas ainda são constantes, e as reivindicações por direitos ainda não foram todas concedias. Encaro o ato de assistir esse filme, como forma de alerta, para negar o comodismo e a conformidade com uma sociedade ainda longe de ser justa, como motivo de inspiração perante figuras corajosas e que despertam nas pessoas sede por justiça e mudança, pelo menos, espero que esse tenha sido o resultado na maioria das pessoas que o assistiram.

Martina R. Silvestri

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